Por Patricia Nader, líder de ESG e impacto da Good Karma Ventures

A busca por formas de monetização de impacto social ou ambiental não é uma tarefa simples, mas é necessária, para a clareza sobre a eficiência, relevância e sustentabilidade de investimento, tanto sob aspecto de impacto quanto financeiro. Inclusive, é preciso ter em mente que investimentos de impacto não são ações filantrópicas e que há significativas diferenças entre ESG, filantropia e impacto.

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Para compreender melhor cada um destes conceitos, a palavra-chave é intencionalidade. Ou seja, o que está de fato no core business do negócio. A partir do aporte e do retorno financeiro esperado, ele se enquadra na categoria negócios de impacto, que conciliam soluções para problemas – social ou ambiental – mas com retorno financeiro ao investidor.

Há diferenças fundamentais entre medir e monetizar impacto. Enquanto a medição do impacto estima a mudança desejada em seus beneficiários através de indicadores customizados e padronizados para aquele setor e empresa (por exemplo, melhora do nível de aprendizagem), a monetização de impacto, vai além e traduz essa mudança gerada pela empresa para uma unidade comum, transformando-o em valor monetário (por exemplo, renda familiar em função de maior empregabilidade). A monetização de impacto é uma ferramenta indispensável para tomar melhores decisões de gestão e investimento, fornecendo uma linguagem comum para dimensionar e avaliar o impacto.

Então, falando especialmente para os gestores de recursos que têm o propósito de gerar retorno financeiro, ao mesmo tempo em que apoiam a resolução de problemas socioambientais, indico que há caminhos para monetizar esses impactos. E digo ainda que umas das utilidades desta medição, se dá na identificação de premissas, fortalezas, fraquezas e potenciais pontos de atenção dos projetos dessa área.

Como todo investidor, os de impacto se preocupam também com a efetividade de seus investimentos. Usualmente, o retorno financeiro de um projeto depende de quão bem gerenciados e alocados são os recursos e há amplas métricas disponíveis e consensuadas no mercado. No entanto, o desempenho dos investimentos sociais depende adicionalmente do nível da transformação e adicionalidade gerada na vida do beneficiário e/ou do planeta. E como os recursos financeiros, geralmente, são escassos, a monetização possibilita a comparação e indica a alocação ideal de cada aporte.

No nosso negócio, um dos desejos é que investidores, empreendedores e líderes corporativos em todos os níveis de sua organização sejam capazes de selecionar os impactos sociais e ambientais com o mesmo rigor, disciplina e ferramentas sofisticadas que utilizam para situações em que o objetivo é o retorno financeiro. A monetização é importante porque é um meio essencial para alcançar isso.

A monetização tem seus desafios, incluindo a necessidade de lidar com a incerteza e subjetividade, o perigo de falsa precisão e o desafio de valorizar resultados que não são naturalmente monetizados e a questão ética e moral, como por exemplo, como monetizar crianças mais saudáveis. Os profissionais de finanças e gestão estão acostumados a lidar com a incerteza sobre o futuro. A monetização torna possível incorporar a incerteza sobre o impacto diretamente na decisão, tornando-os mais claros e transparentes. Ao fazê-lo, apoia melhores decisões sobre o impacto.

A Good Karma Ventures, gestora de investimento de impacto em estágio growth, é pioneira na América Latina na implementação da técnica de monetização de impacto. A partir da nossa parceria com o Insper Metricis (aonde lançamos em conjunto o Guia de Monetização de Impacto), desenvolvemos o nosso Múltiplo de Impacto (também chamada de Análise Custo-Benefício), uma abordagem sistemática e baseada em evidência na qual são precificados os custos e os benefícios econômicos envolvidos na análise.

Para todos os investimentos que realizamos, avaliamos para cada real que o fundo aporta na empresa, o valor de impacto socioambiental gerado. No caso do Zenklub, uma de nossas empresas investidas, que é uma plataforma líder de saúde mental e bem-estar, a partir de análises de estudos e parâmetros pré-estabelecidos de fontes reconhecidas em diversas frentes, concluímos que para cada real que colocamos na plataforma, estão sendo criados R$8,40 de impacto social – o valor medido é oito vezes maior do que foi investido. Através de evidências obtidas em estudos, essa avaliação é calculada por meio das transformações que cada usuário e profissional da plataforma apresenta. Por meio do Zenklub, mais de 1 milhão de pessoas acessarão a plataforma e serão atendidos por 14 mil profissionais, e baseado em estudos, 16% desses usuários irão se recuperar de quadros de ansiedade e depressão. Indo além, para outros estudos, concluímos que cada pessoa que melhora o seu quadro de saúde mental tem um aumento de renda de 42% e 7 a 10 anos adicionais de vida. Descontando os custos, chegamos à conclusão de que a empresa tem um potencial de gerar um valor social de R$ 1,2 bilhão nos próximos 5 anos.

A partir deste case, é possível responder à pergunta inicial, concluindo que sim, impactos socioambientais têm valor monetário. E acrescento que é fundamentalmente importante que sejam metrificados, para que seja possível determinar com governança, o tamanho e a importância do benefício gerado pelo projeto, de que forma ele pode e deverá ser oferecido, em quantas e ou em quais regiões, por quanto tempo, etc… além de, claro, conhecer quanto de dinheiro será preciso para custear isso de maneira viável e sustentável.

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