Novos membros adotam metodologias colaborativas para ativar o potencial coletivo e gerar impactos sistêmicos

A Ashoka tem o prazer de anunciar o reconhecimento de quatro brasileiros como os mais novos Empreendedores Sociais de sua rede global: Beth CardosoGabriela Agustini, Rodrigo Savazoni Valmir Ortega. Fortalecendo o papel das mulheres na agricultura familiar, formulando alternativas regenerativas e inclusivas do uso da terra, promovendo a inclusão digital e a participação cívica, os empreendedores sociais reiteram um padrão presente em todas as pessoas que se dedicam a operar mudanças sociais profundas e duradouras: eles abordam os sistemas geradores dos problemas, e não os sintomas.

“É uma honra para a Ashoka integrar este grupo de inovadores que se destacam na cena da transformação social”, diz Rafael Murta, diretor de Comunidade e Territórios Transformadores da Ashoka. “Junto com uma rede crescente de empreendedores sociais espalhados pelo mundo, Beth, Gabriela, Rodrigo e Valmir representam nossa melhor opção para construir uma estrutura social onde a divisão entre ganhadores e perdedores seja desbancada e dê lugar a uma cultura em que todos se entendem capazes de moldar o presente e o futuro”. Saiba como estes Empreendedores Sociais restauram e ativam o senso de comunidade para colocar ideias em ação e resolver problemas estruturais.

Canecas Personalizadas

Beth Cardoso desenvolveu a metodologia das Cadernetas Agroecológicas para reconhecer a contribuição das mulheres na agricultura familiar e garantir a elas maior autonomia e acesso a direitos. As Cadernetas são um instrumento político-pedagógico em que mulheres registram tudo o que vendem, consomem, trocam e doam a partir de seus quintais produtivos. Essas informações não costumam ser coletadas em levantamentos de dados e censos demográficos, de forma que a real contribuição feminina para a economia rural é invisibilizada, perpetuando desigualdades. Ao sistematizar essas informações, o trabalho desenvolvido pelas mulheres na agricultura ganha contornos que lhes permite reivindicar direitos nas esferas familiar e comunitária, mas também no âmbito das políticas públicas, fundamentando o acesso ao crédito, como o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e o acesso à aposentadoria rural. Conhecedora da diversidade social e cultural do Brasil, Beth disseminou o uso das Cadernetas por meio de redes agroecológicas nacionais e regionais. Ela reuniu agricultoras, camponesas, quilombolas, indígenas, extrativistas, agricultoras urbanas, pesquisadores e profissionais da extensão rural de vários biomas do Brasil para aprimorar e adaptar a metodologia a cada região. Pesquisas que acompanharam os resultados das Cadernetas Agroecológicas utilizadas por redes de mulheres na Amazônia, Nordeste e Sudeste comprovam que os seus quintais produtivos preservam a agrobiodiversidade, tendo sido registradas mais de 245 espécies. Além disso, as Cadernetas revelam que a produção das mulheres tem relevância significativa na manutenção da renda familiar, gerando ganhos equivalentes ao salário mínimo.

Foto: Divulgação/Ashoka

“Tirar as mulheres rurais da situação de invisibilidade, submissão e pobreza para que elas se tornem sujeitas de direitos é a minha meta. Precisamos de políticas públicas para as mulheres que alimentam o mundo. Precisamos reconhecê-las como guardiãs da biodiversidade e mostrar a contribuição que sistematicamente oferecem à renda de suas famílias e à agricultura familiar como um todo.” 
Beth Cardoso (Cardernetas Agroecológicas – CTA Zona da Mata)

 

Gabriela Agustini fundou o Olabi, um makerspace e hub de inovação na cidade do Rio de Janeiro, para atrair novos públicos para programas de educação tecnológica. Para Gabriela, o exercício da plena cidadania hoje depende não só do acesso, mas também da capacidade de lidar com as tecnologias digitais. Por isso, o ponto de partida da aprendizagem tecnológica no Olabi é o contexto, a demanda de cada pessoa. Assim a própria comunidade vai co-criando os programas no Olabi, como o Aprenda com uma Avó, que oferece letramento digital a pessoas idosas e as conecta ao público para que compartilhem conhecimentos e liderem oficinas em suas áreas de interesse, como culinária e práticas artesanais. O Preta Lab é outro exemplo colaboração comunitária, que visa integrar mulheres negras no processo de criação das aplicações tecnológicas. A comunidade busca subverter realidades explicitadas em estudos como o do Grupo de Gênero da Escola Politécnica da USP (Poligen), que aponta que em 120 anos, os cursos de Engenharia da Universidade de São Paulo formaram apenas poucas dezenas de mulheres negras. Para atingir públicos diversos de forma ampla, Gabriela estabelece parcerias com organizações da sociedade civil e entidades privadas. As metodologias inovadoras criadas no Olabi já foram incorporadas em escolas, centros culturais e organizações nacionais de ensino, como a “Computação Sem Caô”, que difunde conhecimentos sobre lógica computacional de forma fácil e relacionada a temas do cotidiano, e o “Clube das Grandes Inventoras”, oficinas que visam estimular o interesse de meninas a usar e descobrir talentos a partir da tecnologia. Gabriela organiza o Olabi como um grande celeiro de iniciativas e programas de alto impacto. Essas iniciativas frequentemente se convertem em organizações autônomas ou em metodologias aprovadas para serem replicadas por outras instituições de grande porte.

Foto: Divulgação/Ashoka

“Construir futuros mais diversos, criativos e em que caibam todos é o que pauta a minha ação. No Brasil, precisamos ir além do consumo das tecnologias e pensar na produção de novos sistemas, linguagens, aplicações que, acima de tudo, possam trazer questionamentos e formas de pensar que enfoquem na realidade brasileira. Fazer parte da Ashoka é uma oportunidade de nos conectar a um conjunto de agentes de transformação social, trocando aprendizados e somando potência.”
Gabriela Agustini (Olabi)

 

Rodrigo Savazoni fundou o Instituto Procomum, em Santos (SP), para mostrar que “o que nós temos é nós” e estimular a participação cívica no enfrentamento dos problemas sociais. Rodrigo entende que é fundamental restaurar o senso de comunidade e a confiança nas organizações da sociedade civil, num momento em que a participação social nas instâncias de poder vem sofrendo constantes ataques. Há cinco anos, o Procomum vem estabelecendo alianças entre atores das periferias da Baixada Santista e construindo uma outra geografia para a ação coletiva. O Procomum é uma incubadora de engajamento social, que se configurou a partir de protótipos de inovação metodológica. Numa espécie de laboratório cidadão, as pessoas são estimuladas a trabalhar em rede e a colaborar umas com as outras, formando comunidades para vivenciar e transformar a cidade. Qualquer pessoa pode apresentar propostas, respondendo a uma chamada do Instituto, sem entraves burocráticos. O processo dura cerca de um ano e inclui mapeamentos; diálogos com o governo local, ativistas e moradores; maturação de novas soluções com base nos ativos do território; e testes de protótipos, antes que sejam lançados e disseminados como soluções legítimas. Ao implantar essas incubadoras em múltiplos pontos geográficos, principalmente para pessoas marginalizadas e excluídas dos espaços formais de decisão, Rodrigo quer ativar um novo sistema de governança cívica que não depende exclusivamente das instituições formais. O Procomum está iniciando a replicação de suas metodologias no Ceará, onde atuará principalmente com jovens das periferias de Fortaleza, e no estado de São Paulo, onde 115 cidades estão se abrindo para um novo paradigma de interação entre o poder público e os cidadãos, o de promover a cidadania ativa e valorizar o conhecimento coletivo na construção de soluções comunitárias. Nessas localidades, o Procomum vai atuar como núcleo fomentador dos laboratórios cidadãos.

Foto: Divulgação/Ashoka

“Meu principal propósito como empreendedor social é ajudar pessoas para que elas possam contribuir com suas comunidades, usando a capacidade criativa e artística que toda pessoa tem. Isso parte da crença de que as comunidades e a defesa dos bens comuns produzem uma vida melhor. Sei que dentro da Ashoka, em todo o mundo, há gente que sente e pensa como eu. Ser parte desta rede me permite conviver com esses seres humanos que querem um mundo melhor. É um caminhar coletivo, que nos deixa mais fortes para enfrentar os enormes desafios contemporâneos. Estar neste programa é, sobretudo, uma enorme responsabilidade.”
Rodrigo Savazoni (Instituto Procomum)

 

Valmir Ortega co-fundou o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) com o objetivo de criar um espaço institucional que tenha uma estrutura fluida, em rede, e facilite a construção de relações baseadas no respeito entre atores de dois mundos que frequentemente não se entendem: o dos negócios e o da vida comunitária em sintonia com a biodiversidade. Para dar conta dessa visão, a Conexsus se organiza em três frentes: como aceleradora, oferecendo treinamentos customizados em gestão empresarial (marketing, finanças, desenvolvimento de pessoas) e produtiva (tecnologias sustentáveis, eficiência) para preparar os negócios comunitários para o mercado. Também promove mecanismos de comércio justo para aumentar a renda de pequenos produtores e valorizar a diversidade natural e cultural que eles representam. E, amplia o acesso ao crédito e outros investimentos para as cadeias de valor dos produtos locais. Para Valmir, o principal caminho para recuperar e proteger a biodiversidade é ampliando a escala desses pequenos negócios. Assim, a Conexsus vem cultivando redes de parceiros que integram instrumentos financeiros inovadores e constroem pontes entre diferentes setores, como pequenas e médias empresas, mercado nacional e global e bancos públicos. Embora seja uma organização recente, o Conexsus já beneficiou mais de 7.500 famílias, cobrindo uma área com mais de 175.000 pessoas diretamente impactadas por um ecossistema econômico que preza pela preservação da biodiversidade e contribui para a superação da pobreza e da exclusão social.

Foto: Divulgação/Ashoka

“Como empreendedor social, meu propósito é conectar pessoas e organizações na construção de soluções para a degradação ambiental e as desigualdades sociais, desenvolvendo alternativas regenerativas e inclusivas, especialmente, associadas ao uso da terra e à conservação da biodiversidade. Participar da rede da Ashoka é como ganhar um amplificador, um grupo imenso de empreendedores sociais que compartilham do mesmo desafio de gerar mudanças sistêmicas para um mundo melhor.”
Valmir Ortega (Conexsus)

 

Para Andrea Margit, vice-presidente de Comunicação da Ashoka América Latina, Beth, Gabriela, Rodrigo e Valmir são propagadores de novos paradigmas em uma sociedade que precisa superar uma estrutura opressiva e centralizada — onde uns poucos decisores tomam todas as decisões — e construir uma arquitetura fluida e inclusiva de convivência, em que todos são poderosos. “Os arquitetos dessa transição são os empreendedores sociais. Eles já estão criando as estruturas e as ferramentas que nos ajudam a navegar nas águas turbulentas das mudanças deste tempo e inspiram muitas pessoas a enxergar seu próprio potencial como agentes de transformação.” 

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